entrei na faculdade pouco tempo depois da tragédia do meco, sensivelmente 2 anos depois. entrei mais tarde, depois de não ter entrado dois anos seguidos, finalmente entrei, e corrijo: não entrei tarde, entrei exactamente quando tinha que entrar. a vida começa na universidade mas mesmo assim eu fui tão feliz fora dela.
a praxe, o curso, os colegas, a adaptação, a idade, o tempo, a vida, aquilo que sempre se imagina e nunca - ou quase nunca - corresponde à realidade. admito: não estou no curso que quero, que gostaria ou em que sempre imaginei entrar. na realidade acho que por nunca ter pensado muito no que aconteceria depois do 12ºano não custou tanto, e mesmo assim custou horrores. a praxe ajudou mas mais uma vez e correndo o risco de me repetir, confesso: odiei a praxe desde o primeiro dia.
sabem todas aquelas expectativas altíssimas em relação aquele mundo tão imenso que é a praxe? eu tinha-as. os meus 3 irmãos foram "praxados", trajaram, e um deles chegou mesmo a "praxar". sou a mais nova e por isso vivi sempre as histórias deles e imaginei as minhas. enganei-me. se a integração para mim seria difícil na minha cabeça então na praxe, foi ainda mais árdua...
depois da inscrição (na praxe é claro) senti de imediato o orgulho no meu número, na minha casa, nas minhas cores - as melhores cores nesta cidade - e naquela praxe que eu, que sempre pensei saber exatamente o que era, desconhecia por completo. a semana a seguir foi um suplicio, mas eu não desisti, achei sempre que melhoraria (e melhorou tanto, tanto, tanto!...). não haviam aulas e a praxe começava às 8:01, e terminava às 20:01h. e todos os dias "enchiamos" e todos os dias eu chorava, e todos os dias eu pedia para me vir embora e ninguém me deixou: e ainda bem que o fizeram. vi pessoas a chorarem e a desistirem ao meu lado, mas houveram pessoas que também me viram a mim. partilhei e partilharam água comigo pessoas que eu nunca tinha visto antes e com quem já tinha uma enorme cumplicidade. partilhei o meu protetor solar, o meu adesivo - o objecto mais utilizado em praxe, talvez - partilhei gestos e muito poucas palavras. partilhei posições desconfortáveis acompanhadas de olhares sinceros. detestei cada momento. e dois momentos bons não compensavam um mau.
só voltei a sentir orgulho do meu número e da minha casa no dia em que fizemos uma viagem de barco pelo Douro e pusemos em prática aquilo que tínhamos aprendido até então: berrar pela nossa casa o mais alto possível quando na presença de outra casa. provavelmente perdemos, provavelmente ganhamos. mas soube tão bem cá dentro do meu peito.
todos os dias cheguei a casa rouca. todos os dias acordei com dores no corpo todo, mas sempre voltei lá, e porquê? não sei. pela minha vida que eu não sei. acho que ninguém sabe e é isso que torna tudo único. não há uma frase ou uma palavra que defina praxe, nem quero tentar, a praxe não se explica de maneira nenhuma, e eu como ainda caloira que sou. recuso-me a fazê-lo.
durante as semanas seguintes tive praxe todas as quintas-feiras. se ia com vontade? não. se queria lá estar? queria, quanto mais não fosse pela teimosia e curiosidade a cerca do que aconteceria a seguir. e caros leitores, aconteceram tantas coisas mágicas a seguir... a semana académica: o regresso da praxe todos os dias durante 12h, a noite negra, as músicas, o comboio de caloiro, a latada, o batismo, o juramento. a escolha da madrinha: as lágrimas sempre que aquele ser falava comigo, o medo de não a ter, o orgulho por me ter acolhido tão bem. cantar para os doutores, eles cantarem para nós, e nos protegerem do mundo todo, só com uma capa negra às costas. o amor que comecei a sentir. na mágica ESTSP, as regras são severas e claras: ninguém falta à praxe. se faltei? faltei. faltei algumas vezes e em nenhuma delas, meus caros, foi unicamente "por faltar". tive que estudar e estudei, tive que ir ao médico e fui. tive que jogar voleibol e joguei. e para quem trabalhava ao fim de semana e estudava durante a semana, era demasiado duro ocupar a unica manhã livre num recinto que durante muito tempo não me disse nada. e mesmo assim, sempre que faltei, faltei por motivos bem válidos. e passei. infelizmente, e mais um vez como tudo na vida, há sempre pessoas que não entendem os motivos alheios, e não se colocam na pele do outro. a vida é dura e cabe-nos a nós torna-la mais leve, melhor. eu li parte do código de praxe. e sabem o que diz por lá? que a ninguém deve ser vetado tanto o direito de pertencer à praxe como o direito de não pertencer. e que àquele que não pertencer, nada deve ser negado, nem deve ser posto de parte por colegas ou mesmo outras identidades. aqueles que se dizem praxistas e não entendem isto, têm de facto, princípios e rever.
arrufos de parte. a praxe da mágica é e está a ser de facto mágica. e sabem o que senti no dia em que vesti pela primeira vez o traje? chorei de tristeza por estar mais perto de largar o cinza e amarelo.
Adelaide Ferreira, 17
arrufos de parte. a praxe da mágica é e está a ser de facto mágica. e sabem o que senti no dia em que vesti pela primeira vez o traje? chorei de tristeza por estar mais perto de largar o cinza e amarelo.
Adelaide Ferreira, 17
Sem comentários:
Enviar um comentário