terça-feira, 25 de agosto de 2020

"fica à vontade para seres como eu"

Vou falar-te em voz baixa. Falamos sempre mais baixo quando queremos que nos ouçam. 
Vou dizer que te perdoo tudo. que perdoo as ausências, que perdoo as coisas que não perguntaste. que perdoo quando precisei e não estiveste. que perdoo quando pedi e não vieste. porque não quiseste. porque não pudeste. perdoo toda a situação em que me puseste. perdoo a situação a que me sujeitei durante tantos meses. perdoo nunca teres entendido que, apesar de tudo, deste lado o sentimento sempre foi verdadeiro. perdoo as cenas de ciúmes. perdoo teres esmurrado o meu carro. perdoo dizeres coisas que não gostei de ouvir. perdoo todas as vezes em que, já em cacos, me vieste falar de como ela é isto e aquilo. perdoo teres-me quebrado em mil. perdoo teres pedido que me afastasse deste e daquele. perdoo teres-me escondido. perdoo teres desistido. perdoo as coisas feias que me disseste. perdoo todas as justificações que não me deste. perdoo-te teres interrompido a minha vida nos últimos dois anos. 

perdoa-me não ter sabido lidar. perdoa-me as mudanças de humor. perdoa-me as vezes em que disse que ia embora e deixei a porta encostada. perdoa as vezes em que adormeci. perdoa as vezes em que fiquei sem bateria. perdoa as vezes em que não me apeteceu. perdoa as vezes em que não fiz exatamente aquilo que querias que fizesse. perdoa ter sido tão sincera. perdoa ter feito coisas que eventualmente te magoaram. perdoa ter-me metido na tua vida, ter deixado o tempo passar. perdoa ter pensado que algum dia ias sentir um terço, foda-se, só um terço daquilo que senti por ti. perdoa-me ter fugido de repente. perdoa-me que não tenha coragem para fechar a porta na tua cara. perdoa as coisas que não sei que sentes, porque nunca me disseste, mas se for mau, perdoa-me

obrigada. obrigada pelas vezes em que pedi e vieste. pelas vezes em que foste o meu refúgio no meio deste mundo horrível em que vivo. obrigada por teres acompanhado a minha vida, as trocas de trabalho, as entrevistas, o stress, os desabafos (aarrrghh detesto esta palavra). obrigada por teres trocado os pneus do meu carro. obrigada por teres ido ter comigo quando tive um acidente. obrigada por teres ido tomar café 20 vezes (a trabalhos diferentes) só para me veres. obrigada por teres sido tão disponível quanto pudeste e enquanto quiseste. 

prometo-te que isto sou eu a fechar a porta. que isto sou eu a dizer que já deu. e se alguma vez achares que fugi, quero que saibas que não sei onde fui buscar tanta força. 

Não tenho nenhuma justificação para ti. não tenho nada a acrescentar ao que te fui dizendo ao longo dos últimos meses. ainda te adoro. muito. mas isso não muda nada. lamento. 

prometo que vai ser como se eu nunca tivesse existido


Adelaide Ferreira

Sem comentários:

Enviar um comentário