segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

o sitio mais seguro do mundo

costumava ser no teu colo. entre a tua perna e a tua mão enrugada. costumava ser nas tuas palavras. costumava ser nos teus olhos infinitos e brilhantes. o sitio mais seguro do mundo. era o nosso quarto. era no teu cheiro. era nas coisas certas que me dizias. nas outras que acertavas e que nem por um segundo achei que fosse por acaso. era nas vezes em que me dizias: "olha para mim. estiveste a chorar?". e eu nem sabia o que era chorar. a sério. há uma parte de ti, que vai habitar em mim. por tudo o que foste. por tudo o que me deste. durante muito tempo, tive muito medo de te esquecer. mas lembro-te sempre. lembro-te na dificuldade em que tenho em adormecer. lembro-te na dificuldade que tenho em manter-me desperta. lembro-te nas viagens que parecem infinitas. lembro-me quando estou - conscientemente - a errar e sei que me estás a ver. tenho saudades tuas. é uma saudade quase tão infinita quanto os teus olhos. há qualquer coisa nos anos em que não viveste, em que não te tive que me faz querer morrer. que me faz querer ver-te. de novo. há qualquer coisa superior que me faz ir andando, ir estando, ir vendo. acho que és tu. a sussurrar-me constantemente que há qualquer coisa diferente, que há qualquer coisa melhor. se foste a minha pessoa durante tantos anos. agora és o meu sussurro quando a vida não vai tão certa. e acredita que há muito, muito tempo, que não vai certa.


amote. como se ama poucas pessoas na vida. e tu ainda és a minha pessoa. agora o meu sussurro.

Adelaide Ferreira 

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