domingo, 24 de novembro de 2013

a minha mãe 1#

"sinto-me cansada agora", "como se me espetassem facas no braço, filha", "tenho tanto frio, tanto!", "trazes-me a sopinha, se puderes?", "desculpa eu não comer mais, não consigo", "tenho os olhos muito negros, não tenho?", "é isso que me dá vontade de desistir, se no fim eu não ficar bem" e as piores de todas "obrigada" e "desculpa pf"

não devia ser assim, pois não? ainda devia ser ao contrário, ainda devias poder ir-me levar a comida à cama, ainda devias conseguir levantar-te e ir aquecer-me uma botija de água quando eu tenho "tanto frio", ainda devias ser tu a falar comigo até eu adormecer, ainda devias ser tu a ir entregar-me os 20 comprimidos durante o dia... devias ser tu a encorajar-me para a vida...se o mundo fosse um sítio justo, como nunca o vi ser, devias ser tu a fazer-me sorrir, e não eu a limpar-te as lágrimas, quando me dizes que estás com dores....
é exatamente quando todos à nossa volta estão a cair, que chegou o timming perfeito para nos levantarmos com muita força... e eu costumo ter essa força, eu costumo não chorar quando tu me pedes que eu faça parar de doer, eu costumo ser fria como só a Marina consegue ser, quando tu dizes que não consegues comer mais, e alguém tem que te obrigar a fazê-lo. eu costumo não me desfazer em lágrimas quando durmo de porta aberta à cinco meses, depois das tuas quimio's, só para garantir que tu estás bem. eu costumo contar os minutos todos de um dia, para tu tomares os medicamentos certos, às horas certas. eu costumo acordar às 6 da manhã, para tomar conta do Gabriel, para deixar a casa como tu gostas, mesmo sabendo que nunca achas o suficiente. eu costumo chorar até adormecer, quando tenho os medos que tu tens e sinto isso que tu sentes.
eu fui mulherzinha para ir todos os dias, passar as tardes contigo ao S. João, soube ver-te toda entubada e não chorar à tua frente, soube ver-te deitada numa poça de sangue, por seres teimosa e nem sequer me zangar contigo. fui mulherzinha para tomar conta do pai, da avó, do nuno e da casa durante o tempo em que  tu não estiveste... se tu soubesses o quão difícil é ser tu... se soubesses o que custa ser tu e não ser eu, se soubesses o que custa não te ter bem, não te ver bem e sentir-te a cada dia que passa, pior...
se soubesses o quanto a tua quimioterapia e o teu cancro me destroem... se tu soubesses porque é que passo tanto tempo sozinha na garagem com o frio que tem estado, em vez de passar mais tempo dentro de casa... se soubesses, porque é que no verão, eu tinha que sair a pé todas as noites e chegar às 4 da manhã para me levantar às 6...mãe... se tu soubesses o que é a sensação de impotência que tenho dentro de mim, sempre que falo da tua doença...
Sou forte porque tu existes, sou como sou, porque sou um prolongamento infinito de ti, e nunca tive tanto orgulho nisto.. Se algum dia puderes ler isto... se tu algum dia quiseres ler isto... eu amo-te, amo-te e sinto-o como só sinto por mais 6 pessoas... porque nós somos assim, e andamos sempre às turras, mas desde que me conheço, que vocês são o melhor de mim!

E vá, chega de lamechices que são quase 20:30h e tenho que te ir levar a sopa, hoje come tudo, sim?


Adelaide Leite (como tu, mãe :') )

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